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Marly de Oliveira

Marly de Oliveira por ela mesma

Viver não é uma situação adjetiva, nem metafórica. É um dado real, que começa com uma data e termina com outra, de onde um certo temor em enunciar a primeira que, aliás, como diria Murilo Mendes, é da competência do registro civil. Porque, na verdade, nascemos depois, e continuamos a nascer interminavelmente. Para o escritor, a primeira data de alguma importância é a da publicação de seu primeiro livro. Eu era aluna da PUC, no Rio, quando publiquei o Cerco da Primavera. Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende, por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho. Comecei em seguida a elaboração de uma Explicação de Narciso, sob a influência de um ambiente todo empenhado no estudo de Mallarmé e a preocupação da beleza pura, completa em si mesma, cujo símbolo poderia ser a Hérodiade (ou o Narciso de Valéry). Mas eu queria ultrapassar o que via, queria intuir na fatalidade de ser, alguma coisa deveria explicar, no mito, aquele voltar-se inteiro para si mesmo, aquele indagar-se que desconhecia, até certo ponto, o desdobramento intelectual de Valéry. Pouco tempo depois, a preocupação de objetivar o poema, sob a lição exemplar de João Cabral de Melo Neto, foi a origem de um livro bem curto, intitulado A Suave Pantera, que teve o prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. A percepção não é automática, só aos poucos nos vamos dando conta do que importa realmente, com a seleção “natural do tempo. Passei a prescindir do que é bonito, do que agrada, e aceitei a função da linguagem como sentido do que me escapava. Escrevi depois O Sangue na Veia, tentativa de definir o amor em quarenta e seis poemas, onde há o desejo de desligar o conceito de amor do de paixão. “Conhecer e abrasarse” de Vieira me parecia mais verdadeiro que a representação de um Cupido de olhos vendados. Mais tarde um pouco é o momento de A Vida Naturale o descobrimento de um contato mais direto com as coisas. O absurdo não fizera seu ingresso, mas já se ensaiava por trás da dificuldade de captar a orgia, o esbanjamento, o luxo da natureza, tão sem preocupação com causa e efeito, tão majestosa, contraditória, ocisiva e criadora. O Contato, eu já disse e reafirmo, é “la rencontre manquée” de que fala Lacan. É o meu fracasso diante da opacidade do outro ou da minha vontade de transparência. Já na sua Invocação, Orpheu experimenta a iminência do Encontro, vislumbra uma conjunção que não se realiza. É a nostalgia da completude, a revolta contra a impotência diante da crueldade da vida. Como não há escolha, o caminho é a tentativa de Aliançacom esse Real, divino e atual, que se impõe cada vez mais de forma severa e enigmática, ao qual me submeto já sem doçura, sem indulgência. A Força da Paixãoe A Incerteza das Coisasmostram que a consciência do sofrimento pode remeter a uma perquirição reflexiva de que, se não aflora um maior entendimento das coisas, nem por isso debilita a vontade de entender, que persiste. (Brasília, 1984)” Obras posteriores: RetratoVertigemViagem a Portugal(1986), O Banquete(1988), Obra Poética Reunida(1989), O Deserto Jardim (1990), O Mar de Permeio(1997), Uma Vez, Sempre (2000).

Arquivos anexos

Texto integral do livro (950kb)


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