
Porque Sade era nosso e não do seu tempo. Nem mesmo a Revolução Francesa, com a frieza metálica da lâmina de sua guilhotina, poderia merecê lo. E que dizer de Napoleão, depois, o frio assassino, símbolo exato de tudo o que no homem Sade mais detestava, e sob cujo império o marquês, em Charenton, começaria a morrer? Porque a ele o que interessava era que o homem sobrevivesse, e ante a hipocrisia do seu tempo, ele já sabia que essa sobrevivência só poderia ser obtida à custa de uma exploração desesperada para dentro de si mesmo, em busca de uma origem perdida não se sabe em que encruzilhada, não se sabe em que relâmpago ou em que momento de fraqueza mística menos pagã. E já quando o mundo tinha curtos os seus limites, e quando do resto se sabia apenas as lendas que chegavam até a Europa, Sade pressentia um perigo que atravessaria latente todo um século até precipitar se no nosso.
Aí está o Século XX, temos a máquina. Alguém já disse que nossas universidades só estão preocupando em formar "imbecis especializados". O homem sabe cada vez menos de si próprio. E quando se diz faça se o amor e não a guerra, o que ainda restar de Sade na natureza que ele tanto observou certamente estremecerá: porque o Marquês já sabia que nós só triunfaríamos se fizéssemos a GUERRA, a última, aquela da qual sairemos definitivamente vencedores ou perdedores, mas que será terrível, e rápida, e cuja lâmina fenderá o espaço sem que ao menos percebamos.
Editado por Thesaurus, 5ª edição, 180 páginas.